Uma geração inteira está a estudar para empregos que não existirão.

Renato Simões
Artificial Intelligence & Machine Learning
Artigo da autoria de Renato Simões, Co-Founder & Designer #FFF Design Assembly

A inteligência artificial (IA) está a redefinir o trabalho, acelerando tarefas, comprimindo custos e reconfigurando carreiras. Em Portugal, a pressão é real, as estimativas apontam para uma exposição elevada à automação. Ao mesmo tempo, surgem novas oportunidades onde a tecnologia atua como alavanca e não substituição do humano.

Este artigo condensa as ideias‑chave para estudantes, educadores e todos os que querem preparar-se, hoje, para um mercado em mutação.

Quase um terço dos trabalhadores em Portugal desempenha atividades altamente expostas à automação. O estudo da FFMS mapeia 120 profissões em quatro categorias: profissões em colapso (tarefas repetitivas, forte risco de extinção), profissões em ascensão (qualificadas, potenciadas pela IA), terreno dos humanos (trabalho de contacto e manual pouco automatizável) e terreno das máquinas (áreas já muito digitalizadas). Exemplos do primeiro grupo incluem restauração, caixas e algumas operações fabris; do segundo, ensino, marketing, vendas, finanças e contabilidade onde a tecnologia eleva, em vez de substituir, o papel humano. Para uma leitura mais profunda com dados detalhados recomenda-se a leitura do artigo original do autor.

A narrativa já não é apenas “empregos que desaparecem”, mas trabalho que muda de forma. Crescem funções como eticista de IA “parte guardião, parte filósofo” para garantir usos responsáveis, explicáveis e auditáveis; curador de dados e treinador de algoritmos, que asseguram dados de qualidade e aprendizagem contínua dos modelos; e perfis técnicos como cientistas de dados e engenheiros de machine learning.

Profissões como designer de interação humano-IA ou especialista em experiência do utilizador potenciada por IA começam a ganhar forma, unindo artes, ciências sociais e tecnologia. Igualmente, as funções criativas estão a reinventar-se com a ajuda da IA.

A IA vem mudar o trabalho e naturalmente alguns ofícios desaparecerão, muitos reinventar-se-ão e outros tantos surgirão do zero. A adaptabilidade e a formação são palavras chave para profissionais e organizações.

Infelizmente ainda persiste um défice de implementação em Portugal.

Na minha opinião, falta um currículo nacional consistente de literacia digital e IA.

É preciso orientar educandos e educadores sobre como usar estas ferramentas e compreender as suas limitações. Essa lacuna formativa deixa os jovens expostos tanto aos riscos (desinformação, plágio, dependência excessiva da IA) quanto às oportunidades perdidas (como usar a IA para aprender mais e melhor).

Felizmente há cada vez mais movimento no sentido de mudar este panorama. Cada vez contamos com mais mentores que partilham o seu conhecimento e centros de investigação como AI Repository ou escolas de formação como a AIcademy e a Lisbon Digital School que promovem a literacia digital e aprendizagens em inteligência artificial.

A procura existe e a cultura está a mudar. O essencial é investir na formação contínua e valorizar competências humanas como a comunicação, criatividade e resolução de problemas que nos tornam complementares às máquinas.

Esta é a oportunidade para a sociedade no geral de repensar o valor do trabalho humano. Se libertarmos os trabalhadores de tarefas monótonas, poderemos focar-nos em atividades com mais significado, mais criatividade e mais impacto positivo.

Em última análise, a IA não rouba a humanidade do trabalho pelo contrário, força-nos a ressaltar o que há de mais humano em nós.

Cabe-nos a nós, portugueses, aproveitar este momento de transformação para construir um mercado de trabalho mais qualificado, inclusivo e centrado no humano.

O futuro do trabalho não está escrito pelos algoritmos, está nas nossas mãos escrevê-lo, com visão, coragem e esperança.


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Renato Simões

Renato, também conhecido como Foan82, é Design Director, investigador de IA, consultor e formador, com mais de 20 anos de experiência a liderar soluções de design e produtos digitais para marcas globais e startups.

É co-fundador da FFF Design Assembly, da Magic Pill Learning Studio, C-IA (Comunidade de Inteligência Artificial em Portugal), autor do AI Repository (laboratório de investigação em IA aplicada ao design) e anfitrião do podcast ConversAI.

É também autor e criador do Design System Standards, documentação pública sobre boas práticas de design systems.

Entre muitas outras participações, destacam-se a sua prestação enquanto professor e orador no IADE, Universidade Europeia, London School of Design & Marketing, Clube de Criativos, Lisbon Digital School, Universidade do Algarve, EDIT e Escola Superior de Design – IPCA.

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